Mensagem - Quaresma 2013

Criado em quinta-feira, 07 fevereiro 2013 Atualizado em sábado, 21 fevereiro 2015 Escrito por Administrador

Diocese de Setúbal
Casa Episcopal

Porque creio, amo

Mensagem quaresmal de 2013


Caros diocesanos de Setúbal

Em tempo de profundas mudanças na vida social, económica e cultural, somos chamados a viver as realidades actuais com preocupação e com o olhar e o coração iluminados pelo desafio de um “Ano da Fé”. Que bom contributo pode trazer ao nosso tempo a fé dos cristãos? E que sugestões o próximo tempo quaresmal pode trazer aos cristãos na sua missão evangelizadora no mundo?

1.Fé é fruto da Caridade (amor) de Deus pela humanidade

A Fé é dom de Deus. A quem acolhe este dom, Deus oferece um olhar mais esclarecido e um coração mais sensível. Oferece também a esperança firme de construir um futuro de justiça, verdade e amor.

O dom da Fé é prova do Amor infinito de Deus por todas as pessoas. Amor que Se revela em Jesus, seu Filho “que se inclina para lavar os pés aos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2013,1). A Fé nasce, apoia-se e alimenta-se constantemente do Amor com que Deus conquista os nossos corações e nos faz viver “uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida” (ibid., 2).

Nesta história de amizade, Deus “quer atrair-nos a Si... Quando acolhemos em nós o amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria Caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele, só então a nossa fé se torna de verdade uma «fé que actua pelo amor» (Gl5, 4-6)” (ibid., 2).

2.A Fé é fonte da nossa Caridade

O nosso olhar sobre o mundo, nesta hora de dificuldades e de procura, é iluminado pela Fé. Abundam comentários, análises, estudos sobre a situação, tal como previsões sobre o próximo futuro. São bem-vindos, mas há que ir mais longe na visão da realidade e na resposta aos desafios. Queremos olhá-la, compreendê-la e agir sobre ela com os olhos e o coração de Deus. Queremos, como lembrou o II Concílio do Vaticano “ler os sinais dos tempos”, com aquele “coração que vê” (cf. Bento XVI, Deus Caritas est, 31,b), que é o olhar de Cristo, o verdadeiro Bom Samaritano, sobre todas as pessoas, em particular as que sofrem mais.

A Fé leva-nos mais longe no modo de amar. Por ela ultrapassamos o humanitarismo, a solidariedade, a assistência pontual. Pela Fé conhecemos a grandeza do amor de Deus e recebemos esse amor sem limites que nos capacita para amar com o amor recebido de Deus: amor que não só nos leva a prestar ajuda momentânea ao próximo, mas também a trabalhar pela sua libertação plena. Pela Fé, que actua pela Caridade, construiremos a justiça e a paz.

O melhor e mais belo serviço que podemos prestar ao próximo, a partir da Caridade, é a Evangelização ou seja a oferta do pão da Palavra de Deus ao mundo faminto de verdade e de amor. “Não há acção mais benéfica e, por isso, caritativa com o próximo do que repartir com ele o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a Evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana” (ibid., 3).


3.Um programa de Quaresma para crescer na fé e na caridade.

A Quaresma prepara-nos para a Páscoa da morte e da ressurreição do Filho de Deus. A Fé faz-nos ver na Páscoa de Jesus a grandeza do Amor de Deus e a sua vitória sobre o mal e a morte. A Quaresma leva-nos à Páscoa pelo caminho da conversão: “A caridade faz-nos entrar no amor de Deus... faz-nos aderir de modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o Espírito Santo faz-nos participar da dedicação própria de Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser humano (cf. Rm5, 5)” (ibid., 4).

Quem não precisa de sentir o amor de Deus e de aprender a amar com o amor de Deus?

Fazem parte da pedagogia quaresmal – uma pedagogia de conversão integral de cada cristão e de cada comunidade – a oração, o jejum, a esmola.

Pela oração mais frequente e alimentada pela Palavra de Deus (a lectio divina), lida a sós ou, melhor, em grupo, cresce o nosso convívio com Deus e o nosso coração vai ficando mais atento e sensível a Deus – e ao Seu projecto de sociedade fraterna – e aos irmãos que mais sofrem.

Pelo jejum e abstinência, segundo as propostas da Igreja que urge conhecer bem para as vivermos no espírito eclesial, cultivaremos o desprendimento do que é supérfluo e secundário, para crescer na liberdade de viver os verdadeiros valores que os mandamentos de Deus apontam.

Pela esmola, praticada de modo esclarecido e adequado ao nosso tempo, partilharemos o que nos sobra e o que pouparmos para acudir a quem não consegue, sozinho, obter o mínimo necessário para viver dignamente, em particular os idosos com parcas pensões e os desempregados.

Como expressão e fruto das nossas renúncias, durante o ano, sobretudo na Quaresma, entregaremos nas paróquias, em sobrescrito próprio e conforme indicações do pároco, este sinal de amor. A renúncia quaresmal de 2012 recolheu 33.162,59 euros para o Vale de Acór e 3.684,73 para o Fundo Diocesano de Emergência. A renúncia quaresmal da nossa Diocese, neste ano, apoiará em 70% o Fundo Diocesano de Emergência Social, sendo o restante para o Centro de Dia de Sto. António da diocese S. Tomé e Príncipe e para os “Refugiados católicos na Síria”.

Caros Diocesanos

O tempo da Quaresma é propício para testemunhar a Fé e a Caridade, na relação profunda que existe entre ambas: acolhimento do amor de Deus que nos rodeia com o seu carinho, aprendendo com Ele a amar o próximo no serviço livre e feliz aos mais pobres.

Neste sentido, peço ao Senhor que nos ajude a viver a Quaresma de modo empenhado e feliz, fazendo-nos próximos, sobretudo dos doentes e de suas famílias, de quem vive a solidão forçada, dos pobres, presos e vítimas das drogas, de quem não tem o mínimo necessário para viver. Por fim, peço ao clero, aos catequistas, aos que têm alguma responsabilidade na comunidade e aos pais que ajudem a quem ande descuidado – sem esquecer as crianças e os doentes – a viver esta exercitação quaresmal como experiência do amor de Deus e aprendizagem de amor ao próximo.

Nesta esperança invoco a bênção de Deus Pai, Filho e Espírito Santo sobre todos vós.


+Gilberto, Bispo de Setúbal
1/2/2013

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